A MONTAGEM


"OUR TOWN" foi escrita em 1938 e com ela o autor recebeu um dos seus três prêmios PULITZER, o mais importante prêmio outorgado às letras nos Estados Unidos. Obviamente, muita coisa no mundo mudou desde então, menos a alma humana, e isso, Thornton Wilder, um professor e antropólogo conhecia profundamente. Talvez ele jamais imaginou que sua peça pudesse um dia ser encenada num mundo globalizado, de internet, televisão a cabo e tudo o mais que compõe o nosso universo atual. A peça mostra a vida de pessoas simples, talvez medíocres, mas a verdade é que a grande maioria das pessoas no mundo inteiro é exatamente assim e vai para o túmulo sem que nada de excepcional lhes aconteça.
A atual montagem é propositadamente lenta, serena, sem cortes, como quis o autor. "A vida passa tão depressa", diz Emily Webb. "Será que alguma criatura humana compreende a vida , minuto por minuto enquanto ela vive?". Essa é a grande mensagem da peça. Nela está a tentativa de encontrar valor acima de qualquer preço para os mais minúsculos acontecimentos de nossas vidas. Quando a protagonista volta aos seus doze anos sem saber que era tão feliz e revive o dia de seu aniversário, ela vê a realidade do que tinha sido sua vida e se dá conta que o milagre acabou. No seu grito de desespero, ela admite que o mundo é lindo e tudo passa tão depressa que a gente nem percebe. Nisso está a grandeza do texto do Sr Wilder. O mundo de Grover's Corners é simplório, sem ninguém brilhante, sem cataclismos, nem grandes batalhas, mas cheio de ternura e uma infinidade de outros bons sentimentos. Isso não é pouco.
A peça fala ao coração e à memória que não envelhecem. É uma peça de subtons, intimista, onde o banal é sublime. As infinitas possibilidades de cada momento só podem ser devidamente apreciadas no momento mesmo em que estão sendo desperdiçadas.

A CIDADE

Localizada em New Hampshire, Nova Inglaterra, na divisa com o Estado de Massachusetts, Grover's Corner é uma cidade minúscula, quase perdida no mapa da América do Norte. Como toda cidade pequena, mantém uma vida calma, rotineira. Todos os dias os habitantes fazem as mesmas coisas, numa repetição monótona, só interrompida pelos nascimentos, casamentos e mortes. Arquétipo de uma cidade pequena, Grover's Corners é exatamente igual a tantas outras cidades norte-americanas. Os heróis da peça são pessoas comuns, vistas em seu cotidiano e trivialidade, sonhos e vida modesta. Dignificado em sua insignificância, esse herói confunde-se na verdade, com todos os homens que vivem em idênticas cidades pequenas.
Nossa Cidade mostra a grandeza dissimulada das
pequenas coisas e a dignidade do homem comum, não por seus atos excepcionais, mas pela simplicidade de seu dia-a-dia.


O Texto

A peça conta a história de uma pequena cidade do interior através dos hábitos cotidianos de seus habitantes. Está dividida em três atos: Vida Diária, Amor & Casamento e Morte. O primeiro ato passa-se em 1901. Traz em primeiro plano duas famílias de classe média da cidade . Ao redor delas, as demais pessoas que compõem o universo de uma cidade do interior: o leiteiro, o entregador de jornais, o guarda, as crianças, o organista do coro, o velho professor aposentado, a vizinha. Cada um deles, com seus problemas, aspirações e desilusões.
O segundo ato passa-se em 1903 e mostra a descoberta do amor e o casamento dos filhos mais velhos das duas famílias: As dúvidas dos noivos , as expectativas dos pais e dos amigos.
Nove anos depois, passa-se o terceiro ato, que trata da morte de uma das personagens. Para ela, é dada a possibilidade de reviver um dia de sua vida. Porém, além de reviver, também assistir-se-á revivendo. Ela tem então uma visão completamente nova das coisas: conclui que os vivos não compreendem a vida e não dão à mesma a devida importância, pois mesmo as coisas mais insignificantes são importantes demais.
A peça trata sentimentos atemporais que são esquecidos pelas pessoas dos grandes centros urbanos da atualidade.

A Encenação

Os textos do autor Thornton Wilder geralmente prestam-se a montagens de grupos pois demandam grande número de atores, têm bons personagens, privilegiam a palavra e são de fácil execução, uma vez que exigem cenários invariavelmente simples, prestando-se ao exercício da criatividade para sua produção:

Figurinos: De época (início do século) - tons pastéis para realçar o tom suave em que é contada a história e mostrar a atemporalidade da peça.

Música: A música do compositor Erik Satie (França, 1866-1925). Sua música tem contemporaneidade com o texto, é uma música de transição, sendo Satie um músico que apontou novos caminhos para novos compositores, especialmente os franceses.

Cenografia: Cadeiras que no decorrer da peça transformam-se nos cenários necessários às ações. Cada ato tem uma cor que os identifica: Verde no primeiro ato para explicitar o tom primaveril, a adolescência das personagens principais; Amarelo no segundo ato para mostrar o momento áureo de suas vidas, o momento em que casam e têm filhos e branco para o terceiro ato que retrata a morte, não de modo mórbido ou sombrio, mas suave e reflexivo.

O Autor

Thornton Wilder (EUA 1897-1975) nasceu em Madison, Wisconsin, bacharelou-se em artes pela Yale University e por sua obra recebeu três prêmios "Pulitzer": "A PONTE DE SAN LUIS REY" (1928), "NOSSA CIDADE"(1938) e "POR UM TRIZ"(1942) . A maioria de seus trabalhos foram adaptados para o cinema com muito sucesso. "Nossa Cidade", dirigida por Sam Wood em 1940, concorreu a vários OSCAR, incluindo filme, diretor e atriz (Marta Scott). Outro grande sucesso foi "Hello Dolly" (1969), direção de Gene Kelly, com Barbra Streisand e Walter Mathaw.