A PEÇA

"O Grande Amor de Nossas Vidas fala da alienação de uma certa camada da sociedade, aquela que uns chamam de proletariado, outros de classe média baixa, enfim aquela gente pobre do bairro da Moóca. O personagem principal é um ex-operário de uma fábrica de papel higiênico, sujeito absolutamente reacionário, que acredita que o povo brasileiro é covarde, preguiçoso, omisso que bate nos filhos para manter a moral e a dignidade - restrita apenas ao plano sexual - que bate a porta na cara do Movimento do Custo de vida, convicto de que não são pessoas iguais a ele, mas agitadores, monstros exportados de Moscou. Existem ainda pessoas assim e a peça mostra este resto social e humano que está vivendo ao lado de todo um jogo social que pouco a pouco se constrói, com líderes saindo de seu ventre mais lúcidos sobre a exploração e o porque de nossa miséria econômica, política e social, abalando a ideologia do Poder. "


Consuelo de Castro


(trecho extraido da reportagem
"CONSUELO DE CASTRO: TEATRO NÃO É SOCIOLOGIA, TEATRO É DIÁLOGO" - Jornal do Brasil, 30/12/78)

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"O Grande Amor de Nossas Vidas é a primeira peça na qual Consuelo de Castro não se coloca diretamente em cena, a primeira em que ela fala de episódios que não viveu, e de gente que não faz parte da sua intimidade e cotidiano. É evidente, entretanto, que a biografia do criador está, de modo indireto, tão presente nessa obra quanto estava, de modo direto e tangível, nos textos anteriores. Foi essa biografia que forjou uma certa qualidade de olhar clínico que Consuelo lança, em O Grande Amor de Nossas Vidas, sobre pessoas que não integram o seu círculo de relações nem a sua classe social. E foi essa biografia que a compeliu a selecionar a fábula e o cenário em que essa comovente peça se apoia. Se ela não se sentisse pessoalmente sufocada pelas pressões do autoritarismo de que tantas vezes, e sob tantas formas, foi vítima, dificilmente teria sido capaz de criar, com tamanha verdade como o fez, a patética figura do patriarca que se investe na função de ditador de uma família de pequeníssima classe média. E se ela, mesmo sem nunca ter vivenciado - presumo - a experiência de passar fome, não tivesse tido várias oportunidades de conviver com pessoas que alguma vez passaram fome, dificilmente teria conseguido retratar com tamanha força de convicção o doloroso sentimento de vergonha que os miseráveis têm da sua própria miséria."


Yan Michalski

(Trecho extraído do prefácio do livro "URGÊNCIA E RUPTURA" - editado pela Editora Perspectiva - 1989)


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"O Grande Amor de Nossas Vidas, em outras circunstâncias, poderia ser o quadro de uma família modelo: o pai manda, ancorado em sólidas razões de fato (é o mais forte) e de direito ( é o pater famílias); a mãe obedece, com uma dupla passividade sexual e social; o filho mais velho secunda o pai, enquanto não lhe toma o lugar; e as filhas submetem-se ou fingem submeter-se. É o patriarcalismo em todo o seu esplendor.
Ou não será, ao contrário, a sua perversa caricatura? Por que este quadro marcadamente conservador coloca-se num meio e num nível econômico em que não há exatamente nada o que conservar, exceto a pior espécie de pobreza, que é a pobreza envergonhada de si mesma.
Durante milênios a humanidade foi paupérrima sem o saber. Hoje, nas grandes cidades, confrontada diariamente com a ostentação da riqueza alheia, a miséria parece não apenas uma penosa privação como escândalo moral que não é mais possível suportar.
O problema não é propriamente a fome - não estamos neste plano elementar - mas a desproporção pungente entre os sonhos de grandeza que a sociedade estimula e as miseráveis realidades que efetivamente oferece.
Vemos, assim, em O grande Amor de Nossas Vidas, o avesso do patriarcalismo e do conservadorismo - o patriarcalismo e o conservadorismo pobres.
O pai refugia-se, enquanto pode, nos seus supostamente altos padrões morais, na crença (desmentida insistentemente por sua própria história de operário paralítico e desempregado) de que a sociedade é justa, o trabalho recompensado, os patrões compassivos o governo honesto e eficiente.
A mãe escapa pela via das religiões populares, que lhe aconselham como norma de conduta precisamente aquilo que de qualquer forma ela teria de fazer. A filha mais velha escorrega lentamente para a neurose, sob a forma degradante da promiscuidade sexual, sonhando sempre com um patrão mítico, rico e doutor, que a transformará da noite para o dia de modesta datilografia numa bem-sucedida Cinderela suburbana. E a mais jovem busca nos ídolos da televisão as recompensas afetivas que o seu próximo casamento, celebrado para salvar financeiramente a família, não lhe poderá proporcionar.
Consuelo de Castro constrói o seu drama numa chave, entre cruel e compassiva, que se enquadra perfeitamente em todo um setor de ficção brasileira, que vai desde Nelson Rodrigues até Dalton Trevisan, desde Plínio Marcos até Rubens Fonseca. Essa literatura não registra, como a de outrora, os heróis nobres, as ações dignas. O indigno, o ignóbil, é freqüentemente a matéria com que tece os seus contos ou as suas peças, despertando em nós, espectadores às vezes também envergonhados, ao lado de um certo riso não destituído de perversidade, a compaixão, a certeza de que ninguém desce tão baixo porque quer. "

Décio de Almeida Prado

(Trecho extraido do prefácio do livro "O GRANDE AMOR DE NOSSAS VIDAS"
- editado pela Secretaria Municipal da Cultura - 1981)


A Autora

Consuelo de Castro é natural de Araguari, Minas Gerais. Cursou ciências sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia durante os anos de chumbo e daí extraiu o pano de fundo de muitas de suas obras. É dessa época também seu aprendizado na arte de resistir e indignar-se. Participou dos violentos conflitos dos estudantes com a polícia em 1.968, que resultaram na depredação e incêndio do histórico prédio e marcas profundas na alma dos seus participantes. Neste ano de 1968, aos 22 anos escreveu sua primeira peça para teatro: "A Prova de Fogo", proibida pela censura e só montada em 1975.
Em 1969, escreveu "`A Flor da Pele". É sua peça mais montada e foi dirigida por, entre outros, Flávio Rangel, Roberto Lage, José Rubens Siqueira e levada ao cinema por Francisco Ramalho.
Na busca pelo sustento, enveredou-se pelo caminho da publicidade, trabalhando em várias agências de renome, destacando-se como grande executiva. O Competitivo e muitas vezes aético meio profissional, como não poderia deixar de ser, foi matéria prima para mais um ótimo texto: em 1973 obteve grande êxito com a peça "Caminho de Volta". No elenco estavam Antônio Fagundes, Othon Bastos, Armando Bógus, Martha Overbeck e Oswaldo Campozana, sob a direção de Fernando Peixoto.
Escreveu teleteatros para a TV Cultura: "Implosão" - direção de Antunes Filho e "Último Capítulo" - direção de Roberto Vignatti.
"O Grande Amor de Nossas Vidas" , considerada sua obra-prima, foi escrita em 1978 e levada ao palco por Bibi Ferreira no Rio e por Leonardo Villar e Míriam Mehler em São Paulo, sendo ambas as montagens dirigidas por Gianni Ratto.
Outras peças da autora: "O Porco Ensangüentado", "Louco Circo do Desejo", "Aviso Prévio", "Script-Tease", "Marcha a Ré", "Ao Sol de Um Novo Mundo", "Only You" entre dezenas de outras.

A Autora e a Crítica

"Consuelo tem a intratabilidade dos artistas verdadeiros. Uma ficcionista mergulhada nas contradições de seu tempo." (Sábato Magaldi - O Estado de São Paulo, 1969)

"Consuelo conhece o campo humano sobre o qual escreve e embora o distorça conscientemente para efeito da argumentação, sabe colocar o dedo com exatidão nas feridas gangrenadas que pretende expor." (Yan Michalski - Jornal do Brasil, 1975)

"Consuelo de Castro a cada peça que escreve, mais contribui para o enriquecimento da dramaturgia brasileira." (Gianfrancesco Guarnieri, 1977)

"Consuelo escreve com ferro e sangue. Suas criaturas não falam, vociferam quase
sempre." (Ilka Zanotto, 1975)

"O indigno, o ignóbil, é freqüentemente a matéria com que tece suas peças, despertando em nós, espectadores às vezes também envergonhados ao lado de um certo riso não destituído de perversidade, a compaixão e a certeza de que ninguém desce tão baixo porque quer." ( Décio de Almeida Prado)

"Consuelo domina o artesanato do ofício. Seus diálogos são claros, diretos, evitam o palavrório. Suas imagens cênicas são preciosas, seu ritmo apurado."
( Edelcio Mostaço - Folha de S. Paulo, 1985)


"Um texto de Consuelo de Castro é sempre uma garantia para um bom espetáculo."
(Clovis Garcia - O Estado, 1986)

"Consuelo sabe surpreender o ridículo e denunciá-lo com técnica implacável"
(Luís Carlos Cardoso - Veja, 1987)

"Tecelã de diálogos tensos, de climas, de confronto, Consuelo de Castro põe em cena a degradação do homem brasileiro" (Alberto Guzik, 1987)

"Suas peças são erupções de vulcão, montanhas que explodem no topo quando menos se espera." ( Fausto Fuser - Ultima Hora, 1978)


"Consuelo escreve para teatro como outras pessoas respiram. O diálogo dramático é a sua forma de expressão espontânea, que ela maneja com notável intuição"
( Yan Michalski - JB, 1975)

"Um teatro vital que transborda de impaciência e rebeldia."
( Jefferson Del Rios - Folha, 1974)

"Essa autora sempre revela um agudo senso do ridículo das pessoas e é especialista no diálogo de mútua provocação." ( Luís Carlos Cardoso - Visão , 1985)

"O diálogo de Consuelo é preciso e contundente. O ritmo de comédia e tiradas brilhantes são características da autora." ( Alberto Guzik - JT , 1985)

O Grande Amor e a Crítica

"Consuelo avançou decidida na linha temática de Nelson Rodrigues, com uma visão proibida da sexualidade... Poucas peças brasileiras foram escritas nos últimos anos com o mesmo grau de exaltação." (Jefferson Del Rios - Folha, 1978)

"O Grande amor retorna às virtudes essenciais do teatro de Consuelo e leva suas características ao paroxismo. Não me lembro de outro texto que, sem desfraldar a bandeira do feminismo, reivindique com tanto mérito a causa da mulher"
( Sábato Magaldi - JT, 1978)

"Esta família é analisada sob um enfoque talvez nunca dispensado pela dramaturgia nacional a personagens de semelhante extração social"
( Yan Michalski - JB, 1978)

"Texto primoroso, tratamento inédito, corajoso, atualíssimo."
( Fausto Fuser - Ultima Hora SP, 1978)

"O Grande Amor de Nossas Vidas é um dos melhores trabalhos de Consuelo. Ela estabelece um relacionamento de poder e opressão com rara capacidade de síntese."
( Tânia Pacheco - Ultima Hora RJ, 1979)

"Tem a força da síntese em que aqueles fantasmas e coordenadas da miséria social constróem sua própria e devastadora mitologia" (Mário Chamie, 1981)

"Nos fala de sonhos e amores... Desprezo e indiferença.... a dureza do cotidiano....
A esperança, ainda que castrada..."
(Ruth Cardoso, professora de ciência política na U.S.P., 1978)