LEONOR DE MENDONÇA

Autor : GONÇALVES DIAS

Diretor: ORIAS ELIAS

Gênero : DRAMA

Faixa Etária: 10 ANOS

 

TEATRO AUGUSTA – Sala Experimental (50 Lugares)

Rua Augusta, 943 - telef. 3151-4141

Temporada : 07/04/2006 a 28/05/2006

Horário : SEXTAS E SABADOS – 21:00h DOMINGOS 19:00 h

Duração: 85 minutos

 

Preço do Ingresso : R$ R$15,00 (Sextas) e R$20,00 (Sab e Dom) /

50% (estudantes, aposentados, classe teatral)

Elenco :

Daniella Murias, Walter Lins, Orias Elias, Claúdio Bovo, Jacintho Camarotto, Karina Mello e Vítor Gutierrez

 

Produção : Cia de Teatro Encena - tel. 3259-2034 / 8144-5615

www.encena.com / e-mail: encena@encena.com

 

SINÓPSE

Ainda criança, Leonor, filha de nobre família de Espanha, é prometida a D. Jaime, Duque de Bragança, cujo sonho era tornar-se padre. Este casamento de conveniência é violentamente abalado quando um jovem da corte de D. Jaime, Antônio Alcoforado, apaixona-se perdidamente pela duquesa. Uma série de fatalidades desperta no duque atrozes dúvidas sobre a fidelidade da esposa, encaminhando a história para um trágico desfecho.

 

 

“ A imaginação tem cores que se não desenham; a alma tem sentimentos que se não exprimem; o coração tem dores superiores a toda a expressão. ”

(GonçalvesDias)

 

 

A PEÇA

Escrita por Gonçalves Dias em 1846, Leonor de Mendonça é considerada uma obra prima do Século XIX e o mais importante texto dramático do romantismo brasileiro. Permaneceu inédita nos palcos até 1939, quando Paschoal Carlos Magno e seu recém criado grupo Teatro do Estudante do Brasil a montaram pela primeira vez, sob a direção da atriz e professora portuguesa Esther Leão. Anos depois, em 1954, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) fez uma antológica montagem, dirigida por Adolfo Celi, com Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Leonardo Villar e Beyla Genauer no elenco.

Apesar de pouco lembrada, houve uma outra montagem, também pelo TBC, no Rio de Janeiro, em 1957. Teve direção de Ziembinski e foi novamente protagonizada por Cleyde Yáconis, desta vez acompanhada por Leonardo Vilar, Egydio Eccio, Fredi Kleemann, Célia Biar, Jorge Chaia e Raul Cortez.

Em 1974, o Teatro Popular do SESI realizou outra grande montagem dirigida por Osmar Rodrigues Cruz, com elenco encabeçado por Cláudio Correia e Castro, Ana Maria Dias, Ewerton de Castro (depois substituído por Carlos Alberto Ricelli) e Abrahão Farc.

Trinta anos depois, a Cia de Teatro ENCENA traz novamente ao grande público este formidável drama romântico.

 

 

“Prender a todos uns aos outros com o amor ou com a obediência, ligá-los, juntá-los.. Fazer brotar a dor e a poesia do choque dessas almas, e do choque das paixões o drama”

(Gonçalves Dias)

 

 

PERSONAGENS

D. Jaime - Nobre orgulhoso, sombrio e desconfiado, é cheio de superstições. O autor faz um paralelo entre o Duque e Otelo: Ambos são crédulos e violentos. Otelo é cioso porque ama e D. Jaime porque tem orgulho. Otelo chora sua Desdêmona, enquanto o duque não derrama lágrimas, porque o orgulho não as tem.

 

Leonor - Mulher dócil e virtuosa. Segundo o autor, não tem um só crime, nem um só vício, tem só defeitos e seus defeitos são filhos da virtude. Lado mais fraco na relação com o Duque, é despedaçado no embate entre ambos. Expõe a eterna sujeição das mulheres ao eterno domínio dos homens.

Antônio Alcoforado – Jovem fidalgo, corajoso e dedicado, tem um amor impossível pela duquesa e provoca um grande infortúnio a sua amada.

Velho Alcoforad o - Severo como pai e como homem; é condescendente, porque ama e é feliz, porque é condescendente. Embalado pela voz de seus filhos, ele caminha lentamente para o sepulcro, e a sua modesta habitação respira amor e suavidade.

Fernão Velho - Velho pajem do duque, áspero e rude, ama sobretudo a seu amo, desvela-se no seu serviço, compraz-se com tudo que lhe diz respeito, alegra-se quando o vê alegre, e sofre quando ele sofre.

Paula - Camareira da duquesa, boa e dócil, é amiga de Antônio e o ajuda a aproximar-se da patroa.

Manoel Alcoforado - Irmão mais novo de Antônio, jovem de boa índole, mas ainda inexperiente, vê no irmão mais velho um exemplo a seguir.

 

Ficha Técnica

Autor........................................................ Gonçalves Dias

Diretor............................................................. Orias Elias

Cenotécnico: ...............................................Jorge Jacques

Iluminação/Op. Luz........................................Zé Luiz Rosa

Figurinos/Maquilagem/Trilha Sonora: ............. Walter Lins

Costureira: ...........................................................Ana Luz

Operação de Som:.................................... Wagner Pereira

Fotos: .........................................................Arnaldo Torres

Divulgação: .................................................... Amália Feijó

Produção:...................................... Cia de Teatro ENCENA

 

ELENCO

Daniella Murias – Leonor de Mendonça

Walter Lins – Antonio Alcoforado

Orias Elias – D. Jaime

Claudio Bovo – Fernão

Jacintho Camarotto – Velho Alcoforado

Karina Mello – Paula

Vitor Gutierrez – Manoel Alcoforado

 

 

Contentar a todos ninguém o alcançou, muitos se contentaram com aprazer a muitos.

O autor tomará por grande honra satisfazer a poucos

(Gonçalves Dias)

 

O Autor

Antônio Gonçalves Dias nasceu no ano de 1823 em Caxias, no Maranhão, e faleceu em 1864 em um naufrágio, no baixio dos Atins, nas costas do Maranhão.
O pai, João Manuel Gonçalves Dias, era um comerciante português, natural de Trás-os-Montes, e a mãe, Vicência Ferreira, era mestiça. João Manuel, casado em 1825 com outra mulher, inscreve o filho no curso de latim, francês e filosofia do prof. Ricardo Leão Sabino. Em 1838, Gonçalves Dias embarca para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando o pai morre. Com a ajuda da madrasta, pôde viajar e matricular-se no curso de Direito em Coimbra. A situação financeira da família torna-se difícil em Caxias, por efeito da revolta da Balaiada, e a madrasta lhe pede que volte, mas ele prossegue nos estudos graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845.
Em Coimbra, Gonçalves Dias liga-se ao grupo dos poetas chamado de "medievalistas". À influência dos portugueses virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. Em 1843, surge a "Canção do Exílio", uma das mais conhecidas poesias da língua portuguesa. Regressando ao Brasil em 1845, passa pelo Maranhão e transfere-se para o Rio de Janeiro, onde morou até 1854.
Nesse período, compôs o drama "Leonor de Mendonça", que o Conservatório do Rio de Janeiro impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; os “Primeiros Cantos” e "Poesias Americanas", que mereceram artigo elogioso de Alexandre Herculano e do Imperador dom Pedro II, que, a partir de então, o nomeia para diversos cargos públicos. Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II e fundou a revista "Guanabara", com Macedo e Porto Alegre. Em 1851, publicou os "Últimos Cantos", encerrando a fase mais importante de sua poesia.
A melhor parte da lírica dos Cantos vem de inspiração ora na natureza, ora na religião, mas sobretudo de seu caráter e temperamento. Sua poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas.
Por conta de sua origem bastarda e mestiça, foi impedido de casar-se com o grande amor de sua vida, a jovem Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos. Frustrado, casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Mulher de gênio irascível, com quem teve uma filha, falecida na primeira infância e de quem se separou em 1856.
Nomeado para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858, em missão oficial de estudos e pesquisa. Voltou ao Rio de Janeiro em 1862, seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada. Em 10 de setembro de 1864, embarca para o Brasil no Havre, no navio Ville de Boulogne, que naufragou, no baixio de Atins, costas do Maranhão, tendo o Poeta perecido no camarote como a única vítima do desastre, aos 41 anos de idade.
Clássico na forma e no estilo, por formação literária, foi, por índole, o poeta das tradições e da alma popular brasileira. Pertenceu à primeira geração do Romantismo Brasileiro. Delicado e melancólico, criou o indianismo romântico, impondo-se como uma das maiores figuras da nossa literatura. É considerado o mais maduro dos românticos brasileiros, o nosso maior poeta romântico. Seus versos encerram eloqüência, lirismo, grandiosidade e harmonia. Escreveu entre outros: "Primeiros Cantos", "Segundos Cantos", "Últimos Cantos", "Sextilhas de Frei Antão", "I-Juca Pirama", "Dicionário da Língua Tupi", "Os Timbiras" e os dramas "Beatriz Cenci", "Leonor de Mendonça", "Boabdil", "Patkul".

 

 

“Leonor de Mendonça é uma peça do seu e do nosso tempo, num desses milagres de extemporaneidade de que é capaz a arte”

(Décio de Almeida Prado)

 

 

 

O Romantismo 

O Romantismo brasileiro (1836-1881) foi responsável pela maior transformação nas letras, até então nunca vista em solo nacional. O movimento literário que valorizava o nacionalismo, a liberdade de criação, a imaginação, os problemas sociais e a análise dos costumes burgueses, nos legou nomes aclamados até hoje pelo grande valor cultural que representam. Sem dúvida Gonçalves Dias é o primeiro da extensa lista, porque nos deixou uma obra farta em intenção dos temas e motivos. ( Luis Fabiano Teixeira)

 

O Romantismo constituiu uma autêntica revolução nos padrões culturais dos países do Ocidente, instituindo uma nova escala de valores nas artes, filosofia, ciências, religião, política etc. O movimento correspondeu à ascensão da burguesia e se caracterizou por mostrar a divisão do homem num momento de transição diante das solicitações de uma sociedade baseada no poder econômico e da atração pelo sentido espiritual da vida. Em face dessa contradição, o homem romântico oscilou entre uma atitude saudosista, na busca de paraísos perdidos no passado, e uma atitude prospectiva de quem acredita no futuro.

No Brasil, o Romantismo foi tendência cultural adequada às transformações de uma época de afirmação nacional, logo após a independência do país. Que imagens do Brasil então apresentar? Num primeiro momento, as de sua natureza exuberante e de suas riquezas naturais, conforme pode ser observado nos poetas da primeira geração romântica como Gonçalves Dias.

Os traços individuais e as manifestações de inadaptação à vida e ao mundo se manifestam na segunda geração romântica, com Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. Essa geração de escritores veio a enredar-se no chamado "mal do século": a profunda crise ética do homem do século XIX, que os levou a uma poesia pessimista e sem perspectiva.

A terceira geração romântica, representada por Castro Alves e Luiz Gama, colocou-se contra essa atitude derrotista . Passava-se a acreditar no progresso e adotava-se uma atitude reivindicatória. A imagem que então se afirma já não é mais a dos gorjeios do sabiá dos primeiros tempos românticos ou dos sussurros mal-agourentos da segunda geração, mas os gritos cortantes dos condores - pássaros de altos vôos - que simbolizavam os novos poetas preocupados com as grandes causas político-sociais: as lotas em favor da república e da abolição dos escravos. ( Benjamin Abdala Júnior)

 

“Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias, distingue-se como o melhor drama romântico brasileiro”

(Sábato Magaldi)

 

 

MONTAGENS HISTÓRICAS

Leonor de Mendonça teve três montagens significativas, a primeira em 1939, por Paschoal Carlos Magno, a segunda, pelo TBC em 1954 e uma terceira em 1974 pelo Teatro Popular do SESI. Sobre a montagem do TBC escreveu o fundador da EAD (Escola de Arte Dramática), professor Alfredo Mesquita no artigo O Teatro Brasileiro Representado : ‘Foi levada em São Paulo, no IV Centenário da cidade, no TBC - Teatro Brasileiro de Comédia, no auge, no período mais esplendoroso desse teatro. Foi o melhor teatro que tivemos lá. A comissão do IV Centenário organizou uma comissão para fazer programa teatral, eu fazia parte, o Décio Almeida Prado também, e outros e escolhemos a peça. A Leonor de Mendonça era a Cleyde Yaconis; o duque foi o Paulo Autran; o pajem, o Sérgio Cardoso quer dizer, um elenco de estrelas. Mas acontece que eles eram contra a peça: "Onde já se viu a gente levar um drama romântico hoje em dia, uma coisa ultrapassada", e fizeram uma pressão contra, ensaiaram mal. Eles foram ensaiados pelo Celi, um dos diretores italianos que se não era o melhor era em todo caso o mais profissional, o mais "pé-de-boi", um grande trabalhador. Ele era um homem de teatro cem por cento, que fazia aquilo com grande entusiasmo.(...) Uma das coisas boas que o Celi fez foi a Leonor de Mendonça . Os atores caçoando, o Paulo Autran naquele tempo era muito de caçoada, de brincadeira, apesar da montagem bonita, das roupas. A noite da estréia foi o maior triunfo do TBC, todo mundo em pé durante 10 minutos. Os camarins do TBC eram no porão, eu, o Décio, os outros, descemos e os atores estavam em baixo para receber os parabéns e quando nós chegamos, eles de longe: "que maravilha de peça, que linguagem maravilhosa, foi uma coisa que fizemos com entusiasmo" - eles que tinham sabotado até o fim. Atores são assim, não são gente em que a gente possa ter confiança cem por cento'.

Sobre a montagem do Teatro Popular do SESI, disse Cláudio Correia e Castro ao escritor Simom Khoury no livro Bastidores:

Era um lindo espetáculo, com cenários e figurinos muito bonitos da Ded Bourbonnais e atores de grande nível, mas o diretor não deu nenhuma colher de chá para os espectadores, seguiu o texto à risca, não cortou nada”.

 

 

LEONOR E OS MESTRES

Abaixo, reproduzimos trechos escritos pelos maiores expoentes da critica e do teatro nacional sobre o texto de Gonçalves Dias:

Décio de Almeida Prado

Em seu livro Drama Romântico Brasileiro , o grande critico e amante do teatro, com completo domínio do tema e extraordinariamente belo estilo literário, fala sobre as mais significativas obras do período e em especial sobre a obra de Gonçalves Dias. Sábato Magaldi, outro grande expoente da critica teatral brasileira, no artigo Drama e Liberdade comenta o livro do colega conforme reproduzimos abaixo:

‘Ninguém ignora que Leonor de Mendonça é o melhor drama brasileiro do século passado e um dos mais perfeitos da nossa história teatral. Décio, entretanto, depois de anotar que ele "respira todo tempo o ar do romantismo", empresta-lhe significado justamente mais amplo: "A simplicidade de suas linhas, desembaraçadas de ornamentos, parece remeter ao mais puro classicismo, enquanto que a sua rara capacidade de penetração psicológica e a sua tão clara percepção social fazem-nos recordar de preferência o realismo — não o realismo teatral brasileiro, carregado de moralismo, mas aquele realismo que iria triunfar em 1857, com a publicação de Madame Bovary de Flaubert". Indica o ensaísta, além de toda a modernidade contida no prólogo e expressa no texto de Gonçalves Dias, "tendências sadomasoquistas" , que lhe conferem "espessura e carnalidade", para concluir: " Leonor de Mendonça é uma peça do seu e do nosso tempo, num desses milagres de extemporaneidade de que é capaz a arte".'

 

Alfredo Mesquita

“ ... um imenso drama romântico é a Leonor de Mendonça , de Gonçalves Dias. Acho que é o maior drama romântico que temos, drama em geral do teatro brasileiro pela elevação das idéias, pela linguagem, uma língua maravilhosa, a dramaticidade é uma coisa que prende, que agarra, uma construção teatral perfeita, é romântico sem ser piegas e uma poesia maravilhosa dentro da peça”.

 

Sábato Magaldi

“Leonor de Mendonça , de Gonçalves Dias (1823-1864), distingue-se como o melhor drama romântico brasileiro. A trama, que poderia evocar Otelo , se constitui, na verdade, um antecipador manifesto feminista.”

 

Ziembinski (Texto para o programa da montagem do TBC no Teatro Ginástico, Rio de Janeiro - 1957)

“O drama de Gonçalves Dias é uma prova inabalável de seu talento dramático e da noção de funcionamento de um conflito teatral. A meu ver, a maior força do drama de Gonçalves Dias consiste em diálogo escrito com extrema beleza e pureza lingüística, como também na força dos sentimentos do autor, em que ele reveste suas personagens. Todos os recursos humanos foram usados com extrema felicidade.”

 

Paulo Autran (em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo – 12/12/2004)

“O Estado – Qual texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?”.

Paulo Autran – Leonor de Mendonça , de Gonçalves Dias”

 

Miroel Silveira (Folha da Manhã - 12/08/1954)

“Historicamente , talvez seja Leonor de Mendonça o nosso primeiro e único texto dramático que apresenta interesse artístico e humano. Gonçalves Dias, alcança, ao narrar essa historia, um domínio exato da técnica, expondo a trama com simplicidade, ritmo e contagiante emoção”.

 

Luis Fabiano Teixeira ( para o Site Aplauso Brasil)

“ A prosa romântica dialoga o tempo inteiro com o teatro shakespeariano, onde o lirismo embala os momentos afetuosos que movem as personagens. O Duque é um novo Otelo, enfurecido, impiedoso, que deseja executar a sua vingança a qualquer custo. A diferença é que Otelo é ciumento porque ama, D. Jaime porque tem orgulho de sua nobreza. As duas histórias se fundem de tal maneira que alguns diálogos parecem pertencer a um só texto”.

 

 

 

“ O maior drama romântico que temos (...)”.

uma construção teatral perfeita, é romântico sem ser piegas

(Alfredo Mesquita)

 

 

Proposta de Encenação

Há alguns anos, em nossos costumeiros ciclos de leituras na sede da Cia,

foi lido este estupendo drama romântico de Gonçalves Dias e o selecionamos

como um dos textos que nos interessariam trabalhar. É chegada a hora.

O texto, sombrio e desesperado, exige, a nosso ver, simplicidade e ritmo. Como nas

montagens anteriores da Cia, a linguagem será realista e o cenário será de recortes,

com elementos essenciais às cenas. Os figurinos, de época, serão de tons sóbrios,

como indica o perfil das personagens e a trilha sonora, com músicas de compositores

renascentistas, de acordo com a época em que se dá a ação (1512).

 

 

O Autor fala sobre sua obra

A ação do drama é a morte de Leonor de Mendonça por seu marido: dizem os escritores do tempo que d. Jaime, induzido por falsas aparências, matou sua mulher; dizem-no, porém, de tal maneira, que facilmente podemos conjecturar que não foram tão falsas as aparências como eles no-las indicam. O autor podia então escolher a verdade moral ou a verdade histórica — Leonor de Mendonça culpada e condenada, ou Leonor de Mendonça inocente e assassinada —. Certo que a primeira oferecia mais interesse para a cena e mais moral para o drama; a paixão deveria então ser forte, tempestuosa e frenética, porque fora do dever não há limite nas ações dos homens: haveria cansaço e abatimento no amor e reações violentas para o crime, haveria uma luta tenaz e contínua entre os sentimentos da mulher e os da esposa entre a mãe e a amante, entre o dever e a paixão: no fim estaria o remorso e o castigo, e neles a moral. Há nisto matéria para mais de um bom drama.

Leonor de Mendonça, inocente e castigada, será infeliz, desesperada ou resignada. Ora, o remorso é mais instrutivo do que o desespero e do que a resignação, como o crime é mais dramático do que a virtude: pena é que assim seja, mas assim é. Se em prova disto me fosse preciso trazer algum exemplo, eu citaria o Faliero de Byron e o Faliero de Delavigne.

Por que então segui o pior? É porque tenho para mim que toda a obra artística ou literária deve conter um pensamento severo: debaixo das flores da poesia deve esconder-se uma verdade incisiva e áspera, como diz Victor Hugo — em cada mulher formosa há sempre um esqueleto.

Foi este o pensamento — a fatalidade. Não aquela fatalidade implacável que perseguiu a família dos Atridas, nem aquela outra cega e terrível que Werner descreve no seu drama “Vinte e Quatro de Fevereiro”.

É a fatalidade cá da terra a que eu quis descrever, aquela fatalidade que nada tem de Deus e tudo dos homens, que é filha das circunstâncias e que dimana toda dos nossos hábitos e da nossa civilização; aquela fatalidade, enfim, que faz com que um homem pratique tal crime porque vive em tal tempo, nestas ou naquelas circunstâncias.

 

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