Teatro Silvio Romero - 2003
O MERCADOR DE VENEZA
(The Merchant of Venice)

William Shakespeare












Direção: Orias Elias


SOBRE A PEÇA

O "Mercador de Veneza" é uma comédia de costumes e das tradições de uma época e de um país, berço de origem do maior teatrólogo de todos os tempos: William Shakespeare. É um encontro na encruzilhada da literatura, do direito e da filosofia; uma peça peculiar, enquadrada entre as comédias do bardo inglês. Desenrola-se de tal forma, que a dramaticidade impõe-se sobre o gracejo, e desvela seu sentido tragicômico. O enredo transita por duas óticas: de um lado o penhor de uma libra de carne, contrato, cujo viés jurídico é garantido mediante homologação com todos os desdobramentos legais subseqüentes; e o fio condutor romântico, o da escolha do noivo por meio de cofres de diferentes materiais e significados.
Os contrastes claro/escuro desdobram-se por toda peça, onde um sentido perpassa, demarcando-a simbolicamente: os sentidos provenientes da condição humana.
A sombra de Shylock e a luz de Pórcia, são emblemáticos do teatro isabelino, e preponderam como vínculo de composição por toda a peça, marcando com as luzes da dramaticidade, o jogo de interesses, de pré-conceitos, de pré-juízos e de estereótipos acionando mecanismos sociais que enquadram um judeu (minoritário) numa sociedade de cristãos.
O atavismo dramático do "Mercador de Veneza" provoca, na literatura, a inquietação e a reflexão de uma questão que é jurídica em seus primórdios, com contornos sobre a legislação de Veneza, ou seja, as leis locais e o estrangeiro, com ênfase nas fases processuais que o litígio comporta.
O "Mercador de Veneza" enfoca dois discursos que alegam as razões de subjetividade que se frontalizam, e onde as dramatis personae não são passíveis de conciliação: Shylock e Antônio.
No horizonte lítero-jurídico-filosófico, há que se observar a polêmica que não nos permite, as mais das vezes, um distanciamento impessoal, pois Shakespeare consegue envolver entre as questões que permeiam a tragicomédia, os conflitos que moram no coração dos homens.
Esta pesquisa para a construção do corpo teórico da tese, reside num esforço hermenêutico, para a discussão que é secularmente travada entre a lei, seu significado gramatical e a justiça, como abordagem axiológica, que é a paráfrase do humano, no contexto histórico-literário Shakespeareano.
É necessário que não nos esqueçamos que os princípios éticos e o contexto legal nem sempre se harmonizam, e este foco fica claro quando da cena do tribunal, onde as razões e as contra-razões se chocam num clima passional, onde excede-se a precariedade jurídica com a exercitação das palavras em que as falsas verdades e a manipulação ideológica são o que o Direito dissimula, a Lei camufla, a Literatura põe a nu, e que a Filosofia se permite questionar.
A tecelagem literária-jurídica-filosófica, constitui-se num exercício que desvela Lei, Direito e Justiça, permeando o dito e o interdito, pontuando a palavra, suas lacunas, sua organização discursiva, e estabelece a relação entre palavra e mímese, verbo, imagem e logos.
São lugares diferentes de fala, mas dotados de saber e sabor, que se recobrem da força de representação da qual é dotada a literatura.
As produções de linguagem, com seus expedientes verbais, sondam as profundezas do espírito, no drama da vida, de seu cotidiano, descortinando a ética da linguagem literária, comprometida, no dizer de BARTHES (1989, p. 31) com "língua e discurso que são indivisos, pois eles deslizam segundo o mesmo eixo de poder".
A literatura em seu condão mágico pode fazer o que BARTHES (1989, p. 42) enuncia como uma possibilidade:
[...] o olhar pode então voltar-se, não sem perversidade, para coisas antigas e belas, cujo significado é abstrato, perempto: momento ao mesmo tempo decadente e profético, momento de suave apocalipse, momento histórico de maior gozo.
Reportando-se mais especificamente ao "Mercador de Veneza", Harold Bloom (2000, p. 222) dele diz:
[...] Seria improvável que o próprio Shakespeare fosse anti-semita, mas Shylock é um daqueles personagens Shakespearianos que parecem transpor os limites das peças a que pertencem.
A eloqüência amarga, característica de Shylock é, nesta peça, atributo de uma intensidade que pode ser destruída em função de uma carência dramática, numa peça em que "ninguém é o que parece ser", para Bloom (2000, p. 228).
Nesta ponte que buscamos estabelecer entre literatura, direito, filosofia, e hermenêutica, tende-se a responder a inquirições básicas, como os descompassos oriundos entre lei, direito e justiça, ligados a um tema que não é espúrio à filosofia nem ao Direito.
O "Mercador de Veneza" é comentado por Rudolf Von Ihering em "A Luta pelo Direito", e dissecado por Luis Recasens Siches no "Tratado General de Filosofia del Derecho".
Deste intermezzo entre filosofia e contexto jurídico, abre-se o leque de interrogações que nos conduzem à Estética da Recepção, de Hans Robert JAUSS, discípulo de Hans-Georg Gadamer que propõe uma leitura hermenêutica e a condiciona na situação de intérprete da história.
O texto, ora em discussão, torna-se assim o móvel de reelaboração de idéias no plano dialógico e discursivo, da matriz que é a lei e a hermenêutica processual que gera a produção da sentença.
Assim a lógica da pergunta e da resposta (categoria metodológica de JAUSS, extraída da hermenêutica de Gadamer), nos conduz ao texto como ponto de partida, como na afirmação de R. G. Collingwood, "compreende-se um texto quando se compreende a pergunta de que ele foi a resposta". (Collingwood apud Zilberman, 1989, p. 114).
É então, da região mais distante na mente humana, obscuro labirinto, que procedem as perguntas cujas respostas, nem sempre definitivas, o texto nos fornece.
As alterações interiores que os personagens de Shakespeare revelam, tem as falas da individuação, e são o limite da realização humana ante a passionalidade e a influência que exercem entre outros destinos.
É em MARÍAS (1977, p. 179) que se encontra a resposta para o enigma William Shakespeare, quando ele diz:
Há quatrocentos anos William Shakespeare nascia, mas vive ainda hoje fragmentado nos mil dramas memoráveis, nos milhões de palavras que brilham como folhas, que resistem à morte e, juntas, recompõem o mistério de sua personalidade esquiva.
Sobrevivem hoje, Shakespeare e o "Mercador de Veneza", sua peça-problema, para nos inquietar, com seus espíritos deslocados na arte, e aos exercícios de ironia onde as questões da filosofia e do direito nos levam a dramaturgia, elos involuntários, muito bem elaborados na vertente psicanalítica e no discurso da farsa do tribunal de Veneza.
Shakespeare e seu "Mercador de Veneza", e sua dialética de drama histórico invadem o nosso sono, e num desconforto nos fazem ver que a justiça que não é feita em seu momento preciso, gera injustiça e essa por sua vez torna-se vingança, que não é nada mais, nada menos do que o Direito condena e a Filosofia denuncia.



SOBRE O AUTOR

SHAKESPEARE, como o dramaturgo mais popular do mundo, nos desafia há mais de 350 anos a conhecer seus personagens míticos. O contador de histórias inglês, usou o teatro, meio de comunicação direto para nossa recreação e reflexão. Nenhum autor na literatura gozou ou goza de tanto prestígio como William Shakespeare, as situações por ele retratadas passam pela ambição, poder, amor, avareza, velhice, ciúmes e racismo.
Se estabelecêssemos uma analogia entre literatura e filosofia, considerando as dimensões e as diferenças; na filosofia, quem dominou o leque multifacetado de temas e contextos, foi Platão, na literatura, Shakespeare.
JULIÁN MARÍAS (1977, p. 172-173) chama Shakespeare de desconcertante, e assim se explica:
[...] sentimos que estamos assistindo - é esta a palavra - não ao drama que se desenvolve em cena, mas sim ao drama que é o homem.
[...] Este dramatismo interno, intrínseco, da vida humana é o grande tema, o achado radical de Shakespeare. [...] O drama é o homem mesmo.
MARÍAS, ao demarcar o espaço de William Shakespeare, o faz partindo do dado básico, que é o homem como realidade dramática, autor e criação, criador e criatura, se interligam de tal forma que a imagem da vida humana não deixa margem para a inércia e conformidade.
O grande interesse, até hoje, evidenciado pelas obras e figuras de William Shakespeare, atraiu outra grande personalidade mentora da psicanálise, Sigmund Freud, que foi fascinado por suas personagens marcantes. Muitos psicanalistas vêm em Shakespeare o verdadeiro precursor de Freud, e esta constatação evidencia a atração que até hoje suas figuras exercem.
Machado de Assis (apud NUNES & NUNES, 1989, p. 16) explica o poder literário que o poeta inglês exerce ainda em nossos dias: "um dia, quando já não houver Império Britânico nem República norte-americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare".
FREUD foi tão longe em seus estudos sobre o Poeta, que em 1913, reúne dois textos para interpretá-los: O Mercador de Veneza e o Rei Lear.
A situação, o mote literário da escola dos candidatos de Portia entre os três cofres, é examinado pelo psiquiatra que demonstrou sempre, um profundo conhecimento da obra do teatrólogo inglês, e nela captou elementos pra dissecar seu conteúdo psicanalítico, dele extraindo lições para seu métier.
Este filão exploratório que une psicanálise e literatura, em nossos dias, também é buscado pelo filósofo, psicanalista e matemático francês SIBONY, que garimpando as personagens do dramaturgo inglês, discrimina suas fúria e paixão em doze peças, que aproximam o mundo do texto e o mundo do leitor.
O tempo em Shakespeare é uma dimensão que não se extravia, nem tampouco se exaure, é uma criação e recriação constante que se alia a curiosas intuições psicológicas.
Alessandro FERSEN (1987, p. 103) alude ao mnemodrama como "um campo de batalha, onde duas potências fraternas e rivais - Cronos e Mnemósine- travam uma guerra perene".
Esta belíssima imagem, oriunda da mitologia grega, busca enquadrar os dois campos que estruturam a literatura, e que Shakespeare, mais que ninguém soube tirar proveito para a tessitura de suas peças. É ainda em FERSEN (1987, p. 103) que lemos:
O duelo é insensato: não pode terminar com a derrota definitiva de um dos dois contendores. O tempo deixaria de ser percebido sem a medida da Memória que assinala seu transcorrer. A Memória, sem o transcorrer do Tempo, perderia sua identidade. O Tempo desenrola-se como um novelo, a Memória segura uma ponta. Na mitologia grega, Mnemósine e Crono são filhos de Urano e de Gaia: são portanto, irmão e irmã e ambos Titãs (lembrar das dimensões dos eventos mnemodramáticos).
Esta configuração do tempo é tão importante e necessária, porque é nela que se processa o contexto hermenêutico. O tempo e seu contraste com a eternidade, os jogos com o fator temporal, as metamorfoses, as enunciações e os tempos dos verbos.
PAUL RICOEUR (1995) distingue entre o tempo mortal, o tempo monumental, o tempo transitado, e o tempo recobrado, jogos com o tempo, somente permitidos através da literatura. É ela que permite este recorte que gera a confrontação com o mundo do texto e o mundo do leitor.
NORTHROP FRYE (1999, p. 14) na introdução de seu estudo sobre Shakespeare, adverte cautelosamente:
Temos que manter o Shakespeare histórico sempre em nossa mente, para evitarmos a tentativa de sequestrá-lo para nossa própria órbita cultural, que é diferente, mas de certa forma tão restrita quanto aquela das primeiras audiências de Shakespeare. Por exemplo, ficamos obcecados pela noção de usar palavras para manipular pessoas e acontecimentos, pela noção da importância de dizer as coisas. Se fôssemos Shakespeare, não escreveríamos uma peça anti-semita como o Mercador de Veneza, ou uma peça "machista" como A Megera Domada, ou uma farsa turbulenta como As Alegres Comadres de Windsor, ou um melodrama brutal como Tito Andrônico; isto é, teríamos usado o teatro para fins mais altos e mais nobres. Um dos primeiros pontos a se esclarecer sobre Shakespeare é que ele não usou o teatro para nada: compreendeu suas condições como eram e as aceitou totalmente. Esse fato tem tudo a ver com a sua posição como poeta hoje.
Como gênio da humanidade, a posição de William Shakespeare é inquestionável, o que nos cabe discutir, refletir e debater é o alcance de sua interlocução e dos desdobramentos desta em diferentes campos do conhecimento humano.